Hugo CaldasAmélia Albertina Pereira Rangel era o seu nome. Viveu por 97 anos. Tomou posse, ao se casar com João Torres Gomes de Melo Rangel, Tio Joca, de três engenhos, junto com inúmeros escravos, lá pras bandas de Pedras de Fogo. Quando da visita do Imperador D. Pedro II à cidade de Pilar ela dançou com o soberano em recepção a ele oferecida. O baile foi na Casa da Câmara que ficava em cima da cadeia. Nessa época ela deveria ter uns dezessete anos. O belo par foi motivo de muito falatório no dia seguinte da pequena comarca. Morou até casar-se na casa do pai, o Coronel Florêncio Pereira, Senhor do Engenho Pituassu em Itaquitinga PE. Esse engenho foi herdado do Avô Paterno o Senhor Major Antonio Francisco Pereira, primogênito do Barão do Bujary.
Ela era irmã do meu avô Ambrósio Pereira, portanto minha Tia-avó. Minha Tia Aurinha, irmã da minha mãe, nasceu de um parto bastante difícil e foi praticamente rejeitada por minha avó, Dona Dondinha Pereira. Meu avô então, botou casa para Tia Iaiá tomar conta e criar a pequena recém-nascida e daquele dia em diante ela foi a mãe da minha Tia Aurinha. Essa era a minha muito querida Tia Iaiá. Figura frágil, lindinha, baixinha, cabelos branquinhos longos que terminavam por fazer um belo cocó que ela segurava com uma fivela de legitima tartaruga. Olhos pequenos, azuis da cor do céu. E ainda era uma emérita contadora de histórias.
Criança é muitas vezes de uma crueldade atroz. Quando nós, seus sobrinhos-netos sentávamos no chão do terraço da casa grande ao seu redor ela então botava para contar histórias, as mais mirabolantes possíveis. Via de regra tinha sempre um fedelho ou fedelha a lhe perguntar por "Juca Italiano", seu grande amor da juventude. Juca Italiano, boêmio incorrigível. Tocador emérito de violão fazia serenatas embaixo da sua janela. Ela enchia os olhos d'água quando se lembrava dele. Um amor não realizado por conta da imposição do pai que, seguindo o costume da época a queria casada com uma pessoa mais velha, porém rica. Esse amor irrealizado, esse sofrimento parecia empolgar a platéia, eu incluso.
Conta-se que ao enviuvar ela devolveu de bom grado todas as propriedades à família do finado marido. Tia Iaiá não deixou descendência, não teve filhos. A lenda contada à boca pequena, dizia que na noite de núpcias seu marido chegou-se todo serelepe, no que foi prontamente repelido.
- "Eu posso ser a sua esposa, não a sua mulher". Teria Tia Iaiá morrido virgem?
Particularmente eu adorava a história de uma "Missa dos Caboclos" onde ela demonstrava todo o seu preconceito. Por ter sido Senhora de Engenho e proprietária de escravos, não fazia por maldade. Era tudo muito natural.
- "Minha padre abre o "mirissá", dizia imitando a fala errada dos caboclos, "no que abre e que se fecha, amém!” E devorava a hóstia que dizia ela, era uma bolacha de água e sal. Caíamos todos na maior risadagem.
Havia uma outra história, desta vez sobre o "costume de casa que vai à praça". Consta que um velho senhor de engenho muito respeitado tinha o hábito de ao final da caneca de café dar umas rodadinhas para aproveitar o açúcar lá no fundo. A visita era da maior cerimônia mas acostumado que estava à prática doméstica foi de pronto admoestado pela esposa. Ele não se deu por rogado. Não iria perder aquele restinho de açúcar por nada nesse mundo. Na sua frente à mesa sentavam-se umas cinco moças. Ele gesticulando com a xícara, perguntou ao anfitrião rodando a caneca!
- “Essas moças todas são suas filhas?”
Final de vida foi morar em Campina Grande. Ela que não gostava da cidade pensava que era apenas um bairro de João Pessoa. Pertencia a Ordem Terceira do Carmo e quando vestia o hábito da confraria se destacava na procissão pela figura angelical. Com a idade foi-se tornando desbocada, as vezes imoral. Armava a maior alteração na cozinha quando manhã cedinho as empregadas a chamavam de tia.
- "Eu sou lá tia de negra como você. Tenho aqui um rebenque que é para enfiar-lhe no rabo!" Caprichava sibilando o ”r". Ficava um siri.
Um belo dia a minha mãe teve que ser operada da vesícula no Hospital do Ipase em Campina. Na alta foi se hospedar na casa da irmã Aurinha. Tia Iaiá a desconhecendo, perguntou o que ela fazia ali na casa dela. Minha mãe respondeu que havia sido operada e que estava esperando "o meu marido" para levá-la para casa. Tia Iaiá, gratuitamente chispou,
- "E tu tens marido, sua quenga..."
Inventava que estava à beira da morte a ponto de várias vezes Aurinha ter que chamar um sacerdote para a extrema-unção. Numa dessas ocasiões o frade começou a rezar e ao lhe passar os santos óleos pegou em sua nuca,
- "Tira a mão dai seu fresco!" Foi o maior constrangimento.
Diziam, repetindo a parteira que a pegou, que ela não chorou ao nascer. Abriu seus olhos azuis e sorriu para o mundo. Também ao morrer não esboçou o mais leve ruído. Naquele dia a casa amanheceu silenciosa. Não havia o menor vestígio de alteração com as empregadas. Um silêncio inquietante percorria toda a casa. Tia Iaiá simplesmente não acordou.
Acho que daquele dia em diante o céu não foi mais o mesmo. Tornou-se um lugar melhor. Muito melhor. Ela deve estar lá, imagino, rodeada por Anjos e Arcanjos que simplesmente adoram ouvir as suas histórias.
- "Minha padre pega o mirissá". E todos caem na maior risadagem.
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